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quarta-feira, março 04, 2009

Strollin' in the park, watching winter turn to spring*

Eu moro perto do Parque Burle Marx. Houve um tempo em que eu andava lá quase todas as manhãs. Depois parei de andar e fiquei um tempão sem ir até lá para isso, ia muitíssimo de vez em quando, o que é uma vergonha, uma vez que o parque é bem perto e é um lugar delicioso.

O parque nasceu do projeto imobiliário da Birman, de fazer em torno dele um bairro de altíssimo padrão, o Panamby. O projeto do parque já existia, feito pelo próprio Burle Marx, para preserver aquele pedacinho de mata atlântica. Foi concretizado por questões econômicas, e até hoje a Fundação Birman é a principal mantenedora do lugar.

não, eu não moro em um daqueles prédios maravilhosos em torno do parque, antes que alguém leia este blog e ache que me sequestrar é bom negócio. Só nao digo que não tenho nem um gato pra puxar pelo rabo porque Cindy Quebra-Barraco me salva dessa miséria total.

Lá no Burle Marx, não pode nada, a não ser andar ou correr. Usando somente os pés. Bicicletas são permitidas apenas para crianças de até 4 anos, e com rodinhas. Nada de patins, animais de estimação, som, jogos de bola, enfim, qualquer coisa que não seja caminhar, correr, contemplar.

Isso faz de lá um point de crianças pequenas e acaba sendo um parque meio local, porque não tem exatamente o que fazer, não tem barraquinha vendendo nada - uma modesta, de água de coco, no estacionamento, que é de chão de terra - e pra se deslocar até lá e não ter nem um escorrega pro moleque brincar, ninguém se anima. Em compensação, apareça lá domingo umas dez da manhã e é um festival de criancinhas fofas bricando no gramado ou olhando as tartarugas e os cisnes no laguinho. Com sorte, dá pra ver uns macaquinhos, mas não é sempre. Gente lendo deitada no gramado, ou batendo papo ou namorando nos banquinhos sob as árvores, ou passeando nas trilhas, vendo as árvores com os respectivos nomes nas plaquinhas.

Tudo isso pra contar que há coisa de 20 dias recomecei a caminhar no parque pelas manhãs. Não todas, bem entendido, mas cada vez mais. Quando não vou, por preguiça, me arrependo, ainda mais com os dias lindos que têm feito, mesmo com o calorão.

A resistência física ainda está no nível 2, numa escala de 1 a 20, mas já noto melhoras e isso vai me animando. Apesar de ser perto, vou de carro: primeiro porque leva 10 minutos pra ir, 10 pra voltar, caminhando, e eu prefiro usar este tempo caminhando nas trilhas de terra dentro do parque do que no meio do trânsito, do barulho dos carros e da poluição dos motores; segundo, porque levo uma sacola com pesinhos e depois de caminhar, faço uns exercícios para os braços. Ao som dos passarinhos, num parque quase vazio, cercada de verde, com aquela brisinha gostosa e cheirinho de terra e de mato. Nada contra academias, até gosto, mas não tem comparação.

Porque eu chego lá na hora que o parque abre: sete da manhã. Já teve dia de eu chegar e ficar esperando o parque abrir, eu e um outro cara que também anda lá habitualmente.

Não só ele como várias outras pessoas e é interessante observar os frequentadores, de acordo com o horário. Às sete, a predominância é masculina, uma proporção aproximada de 70% homens e 30% mulheres. À medida que a manhã avança, lá pelas oito, oito e pouco, começam a chegar as mulheres. Elas vêm quase sempre em grupo, ou em dupla, ao contrário dos homens que quase sempre caminham sozinhos - um ou outro vem em dupla com algum amigo. Com isso, dá pra dividir os frequentadores, que passam uns pelos outros desejando bom dia, da seguinte forma:

- homens sozinhos: eles quase sempre correm. Poucos caminham, e se caminham, marcham rápido. Alguns são casados, outros não; alguns em forma, outros longe disso. Tem um bem gordo que anda sempre com joelheira, outro que fica incentivando a mulherada a andar mais rápido (ele passa correndo), alguns na faixa dos 30, vários na faixa dos 50. Tem o Selvagem da Motocicleta, que eu apelidei desta forma porque ele chega de moto. Há também os que treinam pra valer e o biótipo deles é de quem disputa corridas de longa distância. Muitos correm ouvindo música e usando casaco, mesmo nesses 30 graus à sombra.

- homens em dupla: ou eles conversam sobre negócios, ou conversam sobre mulher. Ou andam lado a lado, mas mudos, como só os homens conseguem ficar. Tem uma dupla de amigos, na faixa dos 50 anos, que um dia fiquei várias voltas na trilha atrás deles: uma que eu não conseguia aumentar o ritmo pra ultrapassar; outra que eu tava bisbilh... ops, colhendo informações da conversa para escrever no blog. Dá uma tese de mestrado.

- mulheres sozinhas: eu me encaixo nessa categoria. Algumas usam iPod (eu ia falar walkman, credo), mas a maioria não - que é o meu caso. Eu gosto dos sons da manhã e não aguento usar fones de ouvido nem óculos escuros. Todas de cabelos preso, ou no sistema prende/solta de acordo com o calor. Algumas prendem uma camiseta adicional na cintura para cobrir o bumbum, me dá até calor ver aquela sobreposição toda.

- mulheres em grupo ou em dupla: essas chegam mais tarde, nunca vejo nenhuma às sete, só pego quando chego mais tarde no parque. Olha, é uma tortura andar atrás de um grupo desses, ou imediatamente à frente, porque ELAS FALAM. Nossa, como falam!!! Todas ao mesmo tempo, e não sei porque naquela altura toda num parque tão silencioso. Longe de mim dizer que não faço o mesmo quando estou com minhas amigas, mas quando tô ali caminhando e encontro um grupo desses, até mudo de trilha, só pra ter de volta o silêncio das árvores.

- informal personal trainer: toda mulher sozinha andando no parque acaba arrumando um informal personal trainer do sexo masculino. Nem sempre é por paquera, alguns são casados, é que de tanto você encontrar as mesmas pessoas nos mesmos horários, acaba saindo amizade. E como homem adora mostrar que anda mais rápido, ou corre, ou isso ou aquilo, acaba resolvendo que vai andar junto contigo pra forçar seu ritmo. No fim, se o cara é legal, é até bom, porque você realmente anda num ritmo mais forte. Se o cara é chato ou tem outras intenções que não são as mesmas que as suas, é um porre, porque você vai encontrá-lo ali toda vez que for andar e te dá um certo trabalho pra se livrar.

Dois grupos me chamam atenção: um é de empregadas domésticas, que caminham juntas cedinho, antes de entrar no trabalho. São em 3 ou 4, acho bem legal, elas são falantes e animadas. O outro é uma dupla patroa/empregada. Elas parecem ter a mesma faixa de idade, uns 55 anos, e a patroa é a personal trainer da empregada, que deve trabalhar há anos com ela. Hoje flagrei um papo das duas:
- dona xxx, a gente não pode ficar aqui sentadinha na sombra? Tá muito calor...
- não, yyy, você não ouviu o que o médico disse? Nós duas estamos com o colesterol alto e a pressão também, tem de fazer exercício físico.
- mas eu já faço tanto, limpo a casa, passo roupa...
- ele disse que isso não é exercício, que é trabalho. Vamos, yyy, deixa de ser mole, vamos caminhar que além de saudáveis nós vamos ficar umas gatas e quero ver seu marido continuar saindo pra ficar no bar com os amigos toda noite depois que ele te vir toda saradona.

E vão as duas em direção às trilhas, ajudando a compor a fauna do Burle Marx, tão variada e rica quanto à flora.




* Feel like making love (George Benson)

4 Comentários:

Blogger MH disse...

ai que delícia! Estudos antropológicos já são divertidos, ainda mais num cenário desses...

10:04 AM  
Blogger Re disse...

Além de andar e ficar mais magra, ainda rende um post deste muito esclarecedor....rsrsrs
Também tenho andado de manhã até lá com meus cães que são proibidos de entrar. Com este calor, fico com peso na consciência se não faço nada com os peludos...
beijos
Re

12:21 PM  
Blogger Cláudia disse...

nem no estacionamento não pode?
E aquela pracinha lá embaixo perto da Escola Italiana, vc não leva eles lá?
beijo

4:01 PM  
Blogger Re disse...

Ah! Levo lá sim, na pracinha... Mas não faz cumprir meus 3 km que me obriguei a fazer por dia...rs
Por isso vou ser barrada todo santo dia...
PTK odeia...
beijo
Re

12:57 PM  

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