Hoje é o primeiro dia dos desfiles das escolas de samba de São Paulo. Em tempos idos, minha fantasia já estaria pronta, os estandartes e costeiros guardados no quartinho da garagem. Um esquentinha na minha casa, eu e meus amigos que iam desfilar, e mais alguns agregados.
Veste a fantasia. Faz a maquiagem bem brilhante, cheia de glitter, que vai levar pelo menos uns 3 dias saindo na fronha do seu travesseiro. Coloca todos os costeiros e estandartes no porta-malas do carro onde couber todos e vai para o ponto de encontro.
Sim, porque Baronesa Arruinada que se preza tem ala cheia de mordomia, com direito a local para deixar o carro e ônibus com ar condicionado para ir para a concentração.
Na concentração, espera pelo desfile batendo papo, observando as fantasias alheias, os tipos esquisitos e engraçados, tirando fotos. Quase arrependida de ter entrado naquela roubada, com sono, aquele costeiro pesado nos ombros.
Chega o momento do desfile, aquela animação, aquele frio na barriga, que delícia entrar na avenida com toda aquela torcida na arquibancada!!
Bate o cansaço, porque nem de longe tô acostumada a pular daquele jeito, mas quando passo na frente da bateria... bem, o cansaço vai embora e fica somente a vontade de matar aquela Rainha da Bateria, desgraçada, cachorra, sem-vergonha, salafrária, pilantra, com aquelas coxas tão ou mais grossas que as minhas, que não tremem nem um milímetro, onde não se vê nem sinal da mais leve celulite, que desconhece completamente o significado da expressão
gordura localizada. É... carnaval não é só alegria, tem também seus dissabores...
Esta foi minha rotina durante 3 anos seguidos. Criada em Niterói, da minha casa dava pra ouvir os ensaios de uma escola de samba, lá longe. Cresci querendo ser porta-bandeira pra usar aquele vestidões, numa época em que o Rio de Janeiro nem tinha sambódromo.
Animada pela
Lala, saí pela primeira vez na Vai-Vai, vestida de cavalo branco. No ano seguinte, o coordenador da nossa ala na Vai-Vai se transferiu para a Unidos de Vila Maria, e como as duas escolas desfilavam em dias diferentes, lá fomos nós: uma na sexta, outra no sábado. Na Vai-Vai, com uma fantasia que homenageava o teatro (a mais bonita de todas que usei), com um costeiro imenso que, quando batia o vento, parecia que eu ia voar. Na Vila Maria, com uma fantasia representando o Estado do Mato Grosso.
No terceiro ano, fantasia de alquimista na Vai-Vai e agora já não me lembro qual foi a fantasia da Vila Maria.
Hoje, tudo isso parece uma realidade muito distante. Recomendo a todo mundo que gosta de carnaval que desfile ao menos uma vez: é uma outra perspectiva, uma forma de ver o carnaval diferente das demais. É sentir o coração batendo no ritmo do samba-enredo, entrar na alma daqueles que passam o ano todo vivendo em função disso, esperando por aqueles breves minutos em que a sua escola vai atravessar a passarela do samba.
Para mim, é lembrança de uma outra fase da minha vida. Uma fase diferente. Não sei se agüentaria tudo novamente, porque é uma maratona de muitas horas. Perdi a vontade.
Acho que tô ficando velha.
Bom carnaval para todos!